Marília Calderón

Foto: Iza Guedes

Num país até enorme
Bem enquanto o povo dorme
Um tirano toma o posto

Ele não é o primeiro
Nem será o derradeiro
A impor assim seu rosto

Ele sabe o que é preciso
Como todo bom narciso
Pra seguir com seu projeto

Espalhar a arrogância
O medo, a ignorância
E a mentira por decreto

Escolher bem os mais fracos
Mais covardes, puxa-sacos
Para os cargos importantes

Destruir toda cultura
Cultuar a sepultura
De artistas e amantes

Censurar livros e aulas
E punir com morte ou jaulas
Qualquer desobediência

Inflar ódio na polícia
No exército, na milícia
Contra toda inteligência

Quem o contradiz
Cabeça cortada
Quem diz que tá infeliz
Cabeça cortada

Mas resiste uma senhora
Que ao cair de toda aurora
Conta histórias às crianças

O tirano, enfurecido
Frente ao povo reunido
Traz a velha pelas tranças

Pra que a ordem prevaleça
Cortarei esta cabeça
E a de todos que ela ajunta

E a zombar, diz à mulher
Salvo alguém se tu souber
Responder a esta pergunta

O barulho de uma brasa
Se apagando em água rasa
Vem de uma ou ambas partes?

Qual a exata proporção
De intensidade, então,
Que calcula em tuas artes?

A senhora estremeceu
Nada ela respondeu
Esperando a sua morte

De repente se lembrou
Das crianças e espumou
De raiva por tal sorte

Quem o contradiz
Cabeça cortada
Jovem, aprendiz
Cabeça cortada

A senhora ergueu o braço
E fez um “claque”, em timbre aço,
O tapa que lhe deu, atada

Perguntou se era da mão
Ou do rosto do bufão
O som daquela bofetada

E a exata proporção
De intensidade, então
Que sentia em sua face

O homem esfregou o rosto
Entre o espanto e o desgosto
E antes que a matasse

O povo deu tanta risada
Vendo assim atordoada
A cara daquele tirano

Escutar junto ao tapa
A resposta da farrapa
Revirar todo seu plano

Que, rindo, esqueceu do medo
E avançou feito brinquedo
Sobre o déspota arrogante

Aprendeu naquele dia
Que o riso e a rebeldia
São as armas de um gigante

se vir por aí amores,
maduros, diga a eles
que os procuro.
que peço perdão
por tanto tropeço…
estive em apuros,
viciada em começo.
droga pesada,
que gera euforia,
dependência…
andei alienada.
em desacato
ao precipício,
pro fundo,
que cobra
com seu final….
fatal e propício.

mas dou a palavra
empenhada.
pode dizer aos amores:
já não os mato, agora.
ao menos não mais
de início, num ato.
nem morro pra ontem,
nem fujo pro hospício.
acabou o barato.
vi que é cilada.
se vir amores,
diga a eles que,
só por hoje, estou sóbria.
que os procuro até o fim.
com princípios
meios, paciência
e uma dosinha de previdência.

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