Marília Calderón

É guerra?

Sai milênio e entra milênio e serumani fazendo guerra. Só nesse instante, é na Amazônia, nas periferias brasileiras, na Ucrânia, dentro de casa…então bora conversar sobre, que o não dito geralmente explode. Vamos de Freud.

Depois da horrível Primeira Guerra Mundial, a Liga das Nações (precursora da ONU) organizou um debate entre intelectuais sobre a possibilidade de que diferenças políticas pudessem ser resolvidas sem o apelo a conflitos bélicos. O primeiro a ser contatado foi Einstein, que escolheu como interlocutor Freud e foi respondido na carta “Por que a guerra?” (1932).

Nesta carta, como de costume, Freud não é muito otimista e diz na lata: não há perspectivas de poder abolir as tendências agressivas do ser humano. O domínio da violência é para ele o “estado original” das sociedades – um tanto mitológica sua teoria, ele assume, e joga a bola pro Einstein: “parece-lhe diferente na física”?

A violência depois caminha para o direito, o qual não deixa de se valer dela, apenas a exerce de maneira comunitária e “legítima” – ancorada em leis que reproduzem as desiguais relações de poder em seu interior. As leis são feitas por e para as pessoas que dominam, deixando poucos direitos para as pessoas dominadas, afirma Freud. “É um erro de cálculo não considerar que originalmente o direito era força bruta e que ainda hoje não pode prescindir do amparo da força”, diz sem medo de decepcionar o contratante. E revelando que não ignora o camarada Marx, segue:

A classe oprimida faz constantes esforços para conquistar mais poder e ter essas mudanças reconhecidas em lei, para ir do direito desigual para o direito igual a todas as pessoas, corrente que se torna mais significativa quando no interior da comunidade há deslocamentos nas relações de poder. Então o direito pode se adequar às novas relações, ou, o que é mais frequente, a classe dominante se recusa a levar em conta essa mudança, e chega-se à rebelião, à guerra civil, ou seja, à temporária suspensão do direito e a novos ensaios violentos, após os quais é instaurada uma nova ordem jurídica.

Ou seja, a eficácia de uma instituição internacional para deliberar sobre os conflitos do mundo não é para Freud uma perspectiva promissora, já que para isso seria necessário que os Estados individuais cedessem seu poder de decisão a tal órgão e…por que os mais fortes fariam isso senão…coagidos pela violência?

Mas em algum momento da carta Freud revela que há esperança, pois há uma fonte de alteração do direito que aparece apenas de maneira pacífica: a mudança cultural dos membros da comunidade. Além da violência, afinal, há outro fator capaz de criar e manter uma comunidade: as ligações afetivas. É quando aproveita para introduzir o interlocutor à sua teoria mais sedutora e quem sabe fazer dessa troca de cartas uma pequena comunidade: a teoria das pulsões (comigo funcionou).

Supomos, diz ele, que as pulsões humanas são de dois tipos: as que tendem a conservar e unir – pulsões eróticas – e as que procuram destruir e matar – pulsões de agressão ou destruição. Uma transposição teórica da conhecida oposição entre amor e ódio, “mas não nos precipitemos em introduzir valores de bem e mal”, alerta. Cada um desses dois tipos é tão indispensável quanto o outro, já que é da atuação conjunta ou contrária de ambas que surgem os fenômenos da vida.

Não se trata, portanto, de eliminar completamente as tendências agressivas humanas, mas de tentar desviá-las a ponto de não terem que se manifestar na guerra. “Se a disposição para a guerra é uma decorrência da pulsão de destruição, então, contra ela, há de se recorrer à antagonista dessa pulsão: a Eros”. Sabe a sabedoria popular, que diz “em tempos de guerra é que mais se faz amor?”. Então, façamos.

Tão simples…só que não. Porque daí tem essa coisa de a estrutura das sociedades ser dividida em metrópoles e colônias, classes dominantes e classes dominadas, nações de primeiro mundo e nações de terceiro mundo, raças privilegiadas e raças exploradas, gêneros que mandam e gêneros que obedecem (muita gente mora no século XIX), em não sei quê, e tudo isso aê acaba coa nossa alegria, porque a gente acaba vivendo demais “entre os nossos”, e como é que a gente cria laço afetivo/erótico com gente que a gente nem sequer sabe nada senão do estereótipo vendido por quem lucra com a guerra? Então chegamos à encruzilhada: como criar laços com quem está estruturalmente para além de nossos condomínios (fazendo referência agora às teses de um Dunker), e como transformar as estruturas sociais, se tantos muros impedem que nos enlaçemos?

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