Marília Calderón

Amor

“O amor não é avaliação de escola de samba”. Foi o que escutei, há mais de uma década atrás, de minha primeira analista, quando estava listando qualidades e defeitos de duas pessoas com as quais tinha me envolvido, cobrando-me fazer uma escolha.

Lembro-me que, depois do tapa na orelha, saí da sessão com a percepção de que mais valia escutar do que controlar as coisas. Mas às vezes retorna a paixão da escolha: como se fosse racional querer o que a gente quer e amar o que a gente ama.

Muito difícil definir o amor, até porque há inúmeros, de acordo com a cultura de cada tempo e lugar: o cortês, o romântico, o cristão, o platônico, o não monogâmico, o líquido, o revolucionário…isso para falar apenas de sua dimensão mais explicitamente erótica.

Para Freud, o amor, qualquer que seja, é sempre erótico. Às vezes desviado de seu fim sexual, às vezes não. Seja como for, mais simples mesmo dizer o que o amor não é: não é avaliação de escola de samba. Nenhum checklist de qualidades e defeitos é capaz de causar o desejo amoroso de alguém.

Ainda que as normas sociais e horizontes de uma época possam gerar o recalque ou não de certos amores, o desejo mesmo é mistério, busca por traços muito singulares e inconscientes que rabiscamos em encontros que possam, quem sabe, nos permitir lidar melhor com nossa imensa precariedade.

O que não tem governo nem nunca terá, o amor não é, mas está, nos lugares onde menos se espera: aqueles em que não avaliamos, não escolhemos, e não controlamos.

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